Doenças como distrofia muscular progressiva, mal de Parkinson, diabetes e tantas outras que afligem parentes, amigos e irmãos em Cristo não costumam aguardar o bom senso das autoridades. Por isso, alimentados pelo sentimento que sempre nos moveu -- a ESPERANÇA --, acreditamos mais do que nunca no desenvolvimento da cura. Destacamos a sabedoria da maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que enxergaram além do proselitismo religioso e votaram a favor de uma chance à vida dos pacientes e do progresso da ciência. Vivemos um momento histórico e gostaríamos de compartilhar essa alegria com nossos parceiros. Foram três anos, em que centenas de pessoas dividiram suas dores e tristezas por meio de mensagens em que relatavam o apego às células-tronco como um último e salvador recurso. Foram dias em que nós mesmos nos emocionamos com histórias de vida em que nem a limitação tirou a alegria de viver.
O mineiro Yudiro Bitencourt é um exemplo. Aos 29 anos e preso a uma cadeira de rodas, ele comoveu o também mineiro Gilvan Pinheiro, a 9.600km. Além da distância física que separava Yudiro, em Araxá, de Gilvan, em Los Angeles, havia também uma imensa distância de oportunidades e de amparo do Estado. Yudiro dependia de uma cadeira artesanal, feita com rodas de patins, e era somente ele e a mãe. Não podia se abrigar nos braços do próprio país. Patrick, filho de Gilvan, se move com a ajuda de uma cadeira computadorizada, conta com os últimos recursos da medicina para impedir que a distrofia paralise seus pulmões. A despeito de não ser norte-americano, ele tem auxílio total, irrestrito e incondicional do governo dos Estados Unidos. O próprio Gilvan mudou-se com a família para a Califórnia na ânsia de salvar a vida do filho, diante da inércia das autoridades brasileiras e de um sistema de saúde que privilegia poucos. Emocionado com a história do rapaz de Minas Gerais, Gilvan prometeu enviar-lhe uma cadeira de rodas moderna.
O Correio Braziliense contou a história, uma prova de como o site Células-Tronco Esperança é capaz de unir vidas em torno da solidariedade. Gilvan conheceu a história de Yudiro ao acessar o site.
Nossa campanha desabrochou com uma flor em forma de DNA. Nasceu na mente e no coração de Cláudio de Deus e nas mãos talentosas de Amaro Júnior. A criação da logomarca, que logo encarnou nossa própria luta, tornou-se tradução da própria esperança e o símbolo nacional de um grito de apelo ao STF. Passou a estampar camisetas, faixas e sonhos de centenas de pessoas. Na fase inicial dessa batalha em prol da vida, buscamos o apoio das autoridades, por meio de corpo-a-corpo e audiências públicas no Congresso Nacional. Desse suor, saboreamos a primeira e quase passageira vitória: em 24 de março de 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 11.105 -- conhecida como Lei de Biossegurança Nacional, ela permitia, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro, desde que inviáveis ou congelados há pelo menos três anos.
Mas o forte lobby da Igreja Católica e uma manobra de Cláudio Fontelles, então procurador-geral da República, lançaram lenha em debates éticos infundados e criaram uma fogueira de inverdades inquisitórias em torno do tema. Redigida pelo ministro Carlos Ayres Britto, a Ação Direta de Inconstitucionalidade Adin nº 3.510 travou os trabalhos do tribunal e ameaçou a ciência com um período de obscurantismo. Constitucional ou não, a medida também puniu, com angústia e frustração, boa parte da população brasileira. Não esmorecemos. Fomos à luta mais uma vez: corpo-a-corpo no Congresso, debates, campanha de conscientização da opinião pública. Jamais perdemos a esperança.
Conosco, estavam milhares de cidadãos que, mesmo sem conhecer a fundo o potencial inacreditável das células-tronco, buscaram informações, fizeram defesas apaixonadas do tema e acreditaram no governo brasileiro. A necessidade de disponibilizar o primeiro banco de dados atualizado sobre o assunto nos fez criar o site Células Tronco Esperança. A idéia era prover o conceito de células-tronco, mostrar o impacto da Adin nas pesquisas, lembrar que a Constituição -- ao menos em tese -- considera a saúde um direito inalienável. Depoimentos emocionados de pacientes acometidos por graves doenças fizeram do site uma espécie de porta-voz dessas pessoas. Procuramos divulgar aos cidadãos cada descoberta no campo das células-tronco. Foram tantas entrevistas com cientistas renomados. O primeiro deles, o norte-americano James Edgar Till, é ninguém menos que o "pai das células-tronco". "As pesquisas renderão muitas surpresas", revelou, com exclusividade ao site, o especialista que em 1963 descobriu que as células transplantadas da medula óssea no baço de ratos se auto-replicavam. "Eu estou propenso a acreditar que as células-tronco se constituem na mais poderosa entidade em que os seres humanos já colocaram as mãos", anunciou o cipriota Panayiotis Zavos, um dos homens empenhados na produção do primeiro bebê clonado. "Pensar que as terapias com células-tronco possam ampliar o tempo de vida não é ficção científica", alertou Richard T. Lee, cardiologista da Faculdade de Medicina de Harvard e responsável por repovoar com células-tronco músculos cardíacos lesionados.
Com a valiosa e imprescindível ajuda do Correio Braziliense, colocamos o site no ar. O belo layout foi assinado pelos profissionais Renato Medeiros e Allan Rabelo, do Correioweb. A edição do conteúdo e a elaboração de parte das entrevistas ficaram a cargo do jornalista Rodrigo Craveiro. Células-Tronco Esperança logo ganhou o respeito dos brasileiros e chegou aos quatro cantos do mundo. Somente de janeiro a março de 2008 foram mais de 50 mil acessos, procedentes de 52 países. Sem fins lucrativos e fruto do desprendimento de profissionais interessados no avanço da ciência, o site tornou-se realidade porque contou com a divulgação gratuita de importantes parceiros. A equipe NasrCastroNeves (Amir Nasr Racing), de Brasília, levou a logomarca às corridas de Stock Car. A Candangus, que corre no Rally dos Sertões, também espalhou as flores com hastes de DNA em suas aventuras pelo Brasil afora. A companhia de comédia Os Melhores do Mundo tratou uma causa tão nobre com seriedade, sem perder o humor. Herbert Vianna, vocalista do Paralamas do Sucesso, emprestou sua imagem -- segurando a camisa da campanha -- e, após comover o Brasil com o seu drama, atraiu a atenção dos jovens e adultos. Hermano, seu pai, cedeu os direitos autorais da frase "Células-Tronco Esperança" para compor a logomarca. Outros parceiros inquestionáveis foram o ator global Marcos Frota, a cantora mineira Paula Santoro e a Rádio Cultura de Brasília (que produziu e transmitiu vinhetas). Jornalistas, médicos, cientistas, a organização não-governamental Movimento em Prol da Vida (Movitae), familiares e amigos de pacientes, pessoas anônimas. Todos se uniram em uma corrente que ganhou força e uniu histórias e anseios. Cabe registrar a tenacidade e a bravura de Andréa Bezerra, presidente da Movitae, e de Gabriela Costa que lutaram junto ao Congresso Nacional e contratou advogados para defender a Adin. Também lembrar o amor do sr. Borges pelo filho com distrofia muscular do tipo Becker, um homem que viajou do Rio de Janeiro a Brasília, com recursos próprios, nos momentos mais importantes de nossa batalha. Ressaltamos também a disposição da família do garoto João Victor de apenas 9 anos, portador de Distrofia Muscular.
A histórica e contundente vitória no STF sobre grupos que desrespeitam a vida humana, ainda que ajam sem compaixão e supostamente em defesa dela própria, não dá por finalizada nossa luta. A partir de hoje, nossa campanha se transforma em um agente da opinião pública. Mas também em um instrumento de incentivo às pesquisas com células-tronco, sejam elas embrionárias ou adultas. Queremos ser um elo entre ciência e população, especialistas e opinião pública. Vamos fazer de tudo para que nossos cientistas tenham condições de trabalho, não sofram pressões externas de entidades em busca de autopromoção, nem sejam vítimas do descabido fanatismo religioso ou de grupos financeiros interessados em manipular os estudos em benefício próprio. As pesquisas serão limpas, transparentes, condizentes com a dignidade de milhares de pacientes que um dia sonham em voltar a andar, sorrir e ter melhor qualidade de vida. Esperamos que esses mesmos especialistas um dia tragam A CURA, o nome da profética música assinada pelo cantor Lulu Santos e pelo jornalista Nelson Motta. E defendemos que usos irresponsáveis das células-tronco sejam fortemente combatidos, julgados por um conselho ético competente, levados ao conhecimento do Estado e da polícia e penalizados com o máximo rigor das sanções previstas na Lei de Biossegurança Nacional. Tal legislação deve ser a diretriz da manipulação genética em nosso país. Queremos deixar o nosso agradecimento a você, cidadão, que esteve conosco em momentos tão difíceis, e fez o pesadelo se reverter em sonho. Vamos sonhar juntos a partir de hoje. Um sonho que logo se tornará realidade.